RELIGIÕES DE MATRIZ AFRICANA

Religiões de Matriz Africana: Entre a Resistência e a Ontologia Relacional

1. Posição Histórica: A Religião Marginalizada

As religiões de matriz africana — como o Candomblé e a Umbanda — ocupam uma posição radicalmente distinta da cristã no debate sobre secularidade e moralidade. Diferentemente do catolicismo (religião oficial até 1891) e do crescimento evangélico no século XX, estas religiões nasceram sob perseguição. Foram criminalizadas no período imperial e republicano, associadas a termos como "feitiçaria" ou "curandeirismo" e sofreram o impacto direto do racismo estrutural. Assim, elas adentram a modernidade brasileira não como uma estrutura de poder, mas como um movimento de resistência.

2. Fundamentação Moral: Para além do Dogma Escrito

Enquanto o protestantismo fundamenta sua moral na revelação escrita (Sola Scriptura), as religiões afro-brasileiras operam de modo distinto. Não existe um livro sagrado normativo único, um código moral sistematizado universal ou uma teologia dogmática centralizada. Em vez disso, a base sustenta-se na tradição oral, na ética relacional, na harmonia com o axé (energia vital) e na responsabilidade comunitária. A moralidade é menos uma "lei universal" e mais um "equilíbrio nas relações" entre humanos, ancestrais, natureza e divindades (orixás).

3. Concepção de Verdade e Poder em Foucault

Utilizando categorias de Michel Foucault, observamos que estas são religiões historicamente submetidas a discursos dominantes, classificadas por séculos como superstição, atraso ou pecado. Ao contrário do cristianismo hegemônico, elas não operam como uma matriz disciplinar dominante (de vigilância e confissão normativa), mas sim como uma tradição contra-hegemônica que enfrenta uma disputa simbólica constante pelo direito de existir.

4. Moralidade Comparada: Lógicas Distintas

Se colocarmos lado a lado as estruturas morais, percebemos que não se trata de ausência de moral nas matrizes africanas, mas de uma lógica divergente:

Critério Protestantismo Candomblé / Umbanda
Base Moral Revelação escrita Tradição ritual
Verdade Objetiva e universal Contextual e relacional
Conceito Chave Pecado e Culpa Desequilíbrio e Desarmonia

5. Relação com a Secularidade e o Espaço Público

Curiosamente, estas religiões tendem a defender fortemente o Estado laico e apoiar o pluralismo religioso. Diferente de outros grupos, não costumam buscar hegemonia legislativa, pois sua própria sobrevivência depende da proteção jurídica da diversidade. No Brasil contemporâneo, enfrentam a crescente intolerância e ataques a terreiros por setores neopentecostais, ao mesmo tempo em que conquistam maior reconhecimento como patrimônio cultural e visibilidade acadêmica.

6. Ponto Filosófico Profundo: Ontologia Relacional

Enquanto o debate protestante gira em torno da verdade objetiva, as religiões afro-brasileiras operam com uma ontologia onde o mundo não é estruturado por uma lei moral abstrata, mas por forças vivas que exigem equilíbrio. A ética, aqui, não é jurídica; é cosmológica, movida pelo compromisso de manter a harmonia entre o sagrado, a natureza e a comunidade.


Gemini