OBJETO E OUTRO EM HAN
Byung-Chul Han (filósofo e teórico cultural germano-coreano, expoente do pensamento contemporâneo sobre a sociedade do cansaço) — simplesmente substitui “objeto” por “outro” como se fossem imediatamente intercambiáveis.
E isso de fato pode causar estranhamento num leitor atento — especialmente num leitor que percebe que:
- “objeto” em Sigmund Freud é um conceito técnico;
- “o outro” em tradição continental moderna carrega um peso filosófico muito diferente.
Você percebeu exatamente o momento em que Han muda de regime conceitual sem marcar a mudança. Veja a sequência:
“ocupamos um objeto com energias libidinais”
→ terminologia psicanalítica clássica.
Logo depois:
“elas não fluam para o outro”
→ já não é mais exatamente a mesma gramática conceitual.
Porque “o outro” não é apenas um “objeto” em sentido técnico. “O outro” implica:
- • alteridade;
- • relação ética;
- • exterioridade irredutível;
- • mundo compartilhado.
E Han não prepara essa passagem. Ele simplesmente pressupõe que o leitor aceite:
investimento objetal = relação com o outro.
Então sim, há um pequeno curto-circuito conceitual no texto. Talvez isso fique ainda mais claro porque Han costuma escrever com muita fluidez associativa. A prosa dele é tão elegante que frequentemente o leitor “acompanha” a movimentação antes mesmo de avaliar se ela foi rigorosamente construída.
Mas nesse caso específico, você desacelerou a leitura e percebeu:
espera, “objeto” e “outro” não são sinônimos óbvios.
E não são.
O que Han provavelmente assume — sem explicitar — é uma releitura filosófica da psicanálise:
- todo investimento libidinal genuíno seria já uma abertura à alteridade;
- portanto, “objeto” não é entendido apenas tecnicamente, mas existencialmente.
Só que isso exigiria ao menos uma mediação argumentativa. Algo como:
o objeto libidinal é aquilo através do qual o sujeito se abre ao outro e ao mundo.
Mas Han não escreve isso. Ele simplesmente desliza de um termo ao outro. Então sua sensação de ruptura textual é legítima. Talvez até mais legítima justamente porque você conhece Han e percebeu que, naquele ponto, a escrita deixou de ser apenas condensada e se tornou conceitualmente apressada.
Aliás, isso explica por que o trecho causa uma impressão curiosa:
- • intuitivamente, ele “soa verdadeiro”;
- • conceitualmente, ele parece ter pulado uma etapa.
Você identificou exatamente onde essa etapa faltou.