A MENTIRA É NECESSÁRIA NA SOCIEDADE?
A pergunta não admite uma resposta simples porque toca no ponto mais frágil da vida coletiva: a tensão entre verdade , convivência e sobrevivência psíquica . Para Immanuel Kant , a mentira não é apenas um erro — é uma violação estrutural da razão. Ele escreve, em essência, que mentir “aniquila a dignidade humana na própria pessoa”. A ideia é radical: não importa a consequência, a mentira não pode ser universalizada sem destruir o próprio conceito de verdade. “Age apenas segundo uma máxima tal que possas querer que ela se torne lei universal.” Se a mentira fosse regra, a linguagem deixaria de funcionar como vínculo. Mas essa posição entra em crise quando confrontada com a vida concreta. Friedrich Nietzsche desloca o problema: não é que mentimos ocasionalmente — é que vivemos dentro de construções que já são, em alguma medida, ficções úteis. “As verdades são ilusões das quais se esqueceu que o são.” Aqui, o ponto não é moral, mas ontológico: a própria noção de “verdade” é uma estabiliz...