NIETZSCHE E O ESTOICISMO
Apatheia estoica e a crítica de Nietzsche Quando se afirma que o estoicismo busca a apatheia, costuma-se traduzir o termo como "ausência de paixões". A tradução, embora comum, pode induzir a um equívoco. Para os estoicos, apatheia não significa insensibilidade ou indiferença diante da vida, mas a liberdade em relação às paixões ( pathē ) que decorrem de julgamentos errôneos. Não se trata de deixar de sentir, e sim de não ser governado por afetos que obscurecem a razão. Nesse sentido, a serenidade estoica não é um estado de anestesia, mas uma forma de autonomia. O sábio continua experimentando alegria, afeição, prudência e benevolência — os chamados eupatheiai ( "bons afetos" ) —, mas procura não se tornar escravo do medo, da ira, da inveja ou da ambição desmedida. É precisamente esse ideal que Nietzsche coloca sob suspeita. Em obras como Além do Bem e do Mal e Crepúsculo dos Ídolos, ele interpreta o desejo de paz interior como um sintoma de exaustão diante da existê...