ALEXIS & LACAN

Alexis & Lacan

Psicanálise / Estruturalismo / Poesia


Esse poema é pequeno, mas está cheio de tensão — e o título é praticamente a chave de leitura.

“Perfuração do paladar, disse Lacan” já aponta para uma ideia central do pensamento lacaniano: a linguagem não satisfaz o desejo — ela o fere.

Vamos por partes.

🍽️ 1. “Paladar” e “perfuração”

O paladar remete ao gosto, prazer, corpo, sensorialidade.

Já a perfuração sugere ruptura, invasão, ferida.

Em Lacan, há uma ideia recorrente: o ser humano perde o acesso direto ao real quando entra na linguagem.

Ou seja:
antes da palavra → experiência direta (o gosto da goiaba)
depois da palavra → mediação simbólica (o signo “goiaba”)

A palavra não entrega o objeto. Ela fura a experiência.

🧠 2. “com a simples palavra / goiaba / não acontecem versos”

Aqui o poema parece ironizar a própria poesia.

“Goiaba” é uma palavra concreta, cheia de sabor, cor, textura.

Mas o poeta diz: isso não gera poesia automaticamente.

Por quê?
Em Lacan:

  • • a palavra nunca coincide com a coisa
  • • o significante (“goiaba”) não contém o real da goiaba

Então: nomear não é experimentar. A poesia não nasce do objeto em si, mas da falha entre palavra e coisa.

🪱 3. “apenas / vermes / e algum choro de semente”

Essa imagem é forte — quase grotesca.

Em vez do sabor doce da goiaba, temos:

  • vermes (decomposição, resto, corpo em ruína)
  • choro de semente (algo que poderia gerar vida, mas aparece como dor)

Isso se aproxima de outro conceito lacaniano: o Real.
O Real, em Lacan:

  • • é o que escapa à linguagem
  • • aparece como ruptura, excesso, algo incômodo ou até repulsivo

Ou seja: quando a palavra falha em capturar o objeto, o que sobra não é beleza — é resto.

🩸 4. “com sentido de coágulo”

“Coágulo” sugere:

  • • sangue
  • • interrupção de fluxo
  • • algo que trava

Isso pode ser lido como:

  • • o significado que coagula, endurece
  • • a linguagem que não flui, não simboliza plenamente

Em termos lacanianos: o sentido nunca é pleno — ele sempre emperra, coagula, falha.

🧩 Amarrando com Lacan

O título funciona quase como uma interpretação psicanalítica do poema:

  • • A palavra (“goiaba”) não entrega o prazer sensorial → perfuração do paladar
  • • A linguagem não produz sentido pleno → apenas restos (vermes, coágulo)
  • • A poesia nasce não da harmonia, mas da falha entre palavra e mundo

Em Lacan:

  • • somos sujeitos da linguagem
  • • mas a linguagem nos separa do real
  • • e é nessa fissura que surgem o desejo, a angústia — e também a poesia

🪶 Em uma frase: O poema parece dizer que nomear é perder, e que a linguagem — em vez de nos alimentar — nos fere, nos esvazia, nos deixa com restos.

Gemini