O ESGOTAMENTO DO AMOR ROMÂNTICO E O RETORNO DO SAGRADO
1. Depois do amor: por que o pop começa a falar com Deus?
Durante grande parte do século XX, a música popular encontrou no amor seu núcleo dramático. Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, descreve esse campo como um teatro de repetições: o amante fala sempre, mas fala dentro de um sistema já dado, um repertório de espera, ausência, ciúme, abandono.
O pop industrializou esse discurso. E talvez aí esteja o ponto de inflexão: quando o amor se torna completamente legível, ele perde parte de sua potência.
O que vemos agora — em trabalhos recentes de artistas como RAYE (This Music May Contain Hope), M.I.A. (M.I.7), Nina Hagen (Highway to Heaven) e mesmo nos deslocamentos simbólicos de Anitta — não é a ausência do amor, mas sua insuficiência.
2. O esgotamento do outro humano
Byung-Chul Han sugere que vivemos uma época marcada pela exaustão do outro. Em uma cultura de transparência e exposição total, o outro deixa de ser mistério e torna-se superfície.
Se o amor depende de um outro opaco, irredutível, o que acontece quando esse outro é continuamente traduzido, exibido, consumido?
Ele perde densidade.
Nesse sentido, o deslocamento do pop pode ser lido como uma consequência direta: se o outro humano já não sustenta o enigma, a música busca um novo interlocutor.
Não mais o amante — mas algo como um Outro absoluto.
3. Do amante ao Outro
Aqui, a leitura lacaniana se impõe quase naturalmente. Para Lacan, o desejo humano é estruturado em relação ao Outro — um lugar simbólico que organiza sentido, lei e linguagem.
O amor romântico tenta encarnar esse Outro no parceiro. Mas essa operação é sempre falha.
Quando essa falha se torna evidente demais, o movimento pode se inverter:
o sujeito abandona o outro empírico e se dirige diretamente ao Outro.
É nesse ponto que frases como “He knows”, presentes na tessitura emocional de RAYE, deixam de ser apenas ambíguas. Elas passam a funcionar como vestígios de uma fala dirigida a uma instância que tudo sabe — não um amante, mas uma escuta absoluta.
4. A forma religiosa como tecnologia de intensidade
Mesmo quando não há adesão doutrinária clara, a música contemporânea reativa formas religiosas clássicas:
- repetição (mantra, ladainha)
- crescendo (êxtase, elevação)
- confissão (exposição do eu)
- entrega (suspensão do controle)
Nietzsche já havia percebido que, mesmo após a “morte de Deus”, as estruturas do sagrado persistem como formas. O que morre é o conteúdo dogmático; o que permanece é a necessidade de intensidade.
Nesse sentido, o pop não retorna à religião — ele reutiliza suas arquiteturas.
5. Quatro álbuns, quatro teologias
Se olharmos mais de perto, cada uma das artistas mencionadas não apenas “se aproxima” do sagrado, mas constrói uma teologia própria:
RAYE — This Music May Contain Hope
O sagrado como cura. A música se aproxima da oração não como dogma, mas como tentativa de recompor um eu fragmentado. Aqui, Deus é menos uma entidade e mais uma função de escuta.
M.I.A. — M.I.7
O sagrado como revelação e conflito. Há uma reapropriação do imaginário cristão — especialmente apocalíptico — como linguagem para pensar poder, verdade e sistema. Deus aqui não consola: expõe.
Nina Hagen — Highway to Heaven
O sagrado como êxtase. Sua trajetória já incorporava o cristianismo, mas agora ele aparece como performance total: voz, corpo e fé indistintos. Uma religiosidade que não se contém — ela transborda.
Anitta — Equilibrium
O sagrado como corpo e rito. Ao dialogar com religiões afro-brasileiras, a transcendência não está fora do mundo, mas encarnada. Não há distância entre espiritual e material — há incorporação.
O que une essas quatro não é o conteúdo da fé, mas o gesto:
todas deslocam a música de uma relação horizontal (eu-outro) para uma relação vertical (eu-algo que excede).
6. Crise, sentido e o retorno do absoluto
Max Weber falava do “desencantamento do mundo” como marca da modernidade: a substituição do mistério pela racionalização.
Mas o que vemos hoje pode ser o inverso parcial desse processo — não um retorno ingênuo ao encantamento, mas uma reintrodução do absoluto em formas inesperadas.
Em um contexto de:
- hiperexposição digital
- instabilidade política
- ansiedade generalizada
o sujeito contemporâneo parece confrontar um limite:
a linguagem comum não basta.
E quando a linguagem falha, recorre-se àquilo que historicamente soube lidar com o indizível: o sagrado.
7. Não um Deus, mas uma estrutura
Importa insistir: não estamos diante de um retorno homogêneo a Deus.
O que retorna é a necessidade de um lugar onde:
- tudo possa ser dito
- tudo possa ser ouvido
- o sentido não dependa da resposta do outro
Se o amor era, como em Barthes, um discurso dirigido a um outro sempre ausente, o sagrado surge como tentativa de resolver essa ausência:
falar a alguém que, por definição, não falha em escutar.
8. Depois do amor
Talvez não seja o fim do amor, mas o fim de sua centralidade.
O pop, que por tanto tempo dramatizou a relação entre dois, começa a ensaiar outra configuração:
um eu diante do infinito.
Se isso é fé, estética ou sintoma, ainda não sabemos.
Mas há um sinal claro:
quando o outro já não basta, a música procura aquilo que não pode faltar.
ChatGPT