FILOSOFIA DA EXISTÊNCIA

João Pereira Coutinho levantou a seguinte pergunta:

"Por que motivo a longevidade é mais importante do que o prazer?".

Luiz Felipe Pondé respondeu que as pessoas talvez não valorizem tanto o prazer hoje em dia: elas escolhem a saúde, a longevidade. Minha observação neste diálogo é sobre o motivo dessa escolha, consciente ou não. A mim parece que ela está relacionada ao tradicional medo da morte, ao anseio de imortalidade, sobretudo para aqueles que gozam de uma vida de conforto material.

O ponto interessante é que a escolha da longevidade em detrimento do prazer raramente acontece porque as pessoas fizeram um cálculo racional explícito do tipo "prefiro viver 90 anos do que sentir prazer agora". Em geral, ela está ligada a algo mais profundo: a relação humana com a finitude.

Na filosofia, há pelo menos três linhas de interpretação possíveis.

A primeira é justamente a que sugeri: o medo da morte. Desde Epicuro até Ernest Becker, encontramos a ideia de que boa parte do comportamento humano pode ser compreendida como uma tentativa de negar ou afastar a consciência da morte. Becker, apoiando-se na psicanálise, argumentava que quase toda cultura é uma "máquina de imortalidade simbólica". Nesse sentido, cuidar obsessivamente da saúde não seria apenas um cuidado com o corpo, mas uma tentativa de prolongar a própria existência e manter a morte à distância.

Uma segunda interpretação viria de Baruch Spinoza. Para ele, todo ser possui um conatus, um esforço fundamental para perseverar em seu ser. A busca pela longevidade não seria necessariamente medo da morte, mas expressão de uma tendência mais básica: continuar existindo. Nesse caso, a preferência pela saúde seria quase uma inclinação ontológica, anterior a qualquer reflexão.

Já uma terceira leitura aparece em pensadores como Blaise Pascal e Martin Heidegger. Ambos observam que os seres humanos vivem tentando evitar um encontro direto com a própria mortalidade. O curioso é que, para Heidegger, uma vida excessivamente dedicada à preservação biológica pode ser uma forma de fugir da questão mais importante: o que fazer com o tempo que temos. Em outras palavras, viver mais não responde necessariamente à pergunta sobre viver melhor.