A POÉTICA DO MAR COR DE VINHO: DE HOMERO A EUGÉNIO DE ANDRADE
A expressão “mar cor de vinho” remete diretamente a Homero (grego antigo: Ὅμηρος), a figura lendária e fundadora da poesia épica clássica ocidental. Na sua obra-prima épica, a Odisseia, ele descreve o mar como “οἶνοψ πόντος” (oînops póntos), que se traduz literalmente como “mar com aparência de vinho” ou “mar de olhos cor de vinho”. É uma metáfora enigmática que sugere intensidade, profundidade e até estranheza, mais do que uma cor literal.
Origem da expressão
- Homero: Nos seus poemas épicos monumentais (a Ilíada e a Odisseia), o mar é repetidamente designado como “cor de vinho”.
- Termo grego: A palavra “οἶνοψ” combina oinos (vinho) e ops (olhos, aparência), criando a imagem vívida de uma superfície marinha escura, densa e quase púrpura.
- Mistério literário: Diferente de outros epítetos homéricos tradicionais (como a “aurora de dedos rosados”), esta metáfora específica intrigou estudiosos por séculos, pois não corresponde visualmente aos tons de azul que associamos naturalmente ao mar hoje em dia.
Possíveis interpretações
- Ausência da cor azul nas culturas antigas: Estudos de linguística histórica sugerem que muitas civilizações antigas não tinham uma palavra específica para o “azul”. Consequentemente, o mar era percebido e categorizado através de tons de vermelho, preto ou um brilho metálico, e não como azul.
- Simbolismo do vinho: O vinho tinha um papel sagrado e central na cultura grega antiga, fortemente associado à paixão, ao êxtase ritual e ao mistério existencial. Ao descrever o mar como vinho, este ganha uma dimensão emocional e ritualística profunda.
- Atmosfera épica: O vasto mar navegado por Ulisses (Odisseu) nunca é um mero cenário; funciona como uma força viva e volátil — inebriante e perigosa, muito parecida com o vinho que embriaga e desorienta.
- Poética da estranheza: A escolha de Homero pode ter sido puramente estética, deliberadamente utilizada para evocar uma sensação de profunda alteridade, espanto e fascínio diante da magnitude da natureza.
No poema de Eugénio de Andrade
Quando o poeta lírico português contemporâneo Eugénio de Andrade (nome de batismo José Fontinhas, uma das maiores figuras do Modernismo português do século XX e do lirismo puro) evoca “o mar de Ulisses cor de vinho”, ele intencionalmente:
- Dialoga com a tradição clássica: Traz o legado homérico diretamente para dentro do tecido da sua própria poesia moderna.
- Reforça o tema da busca: Ulisses continua a ser o viajante eterno por excelência, e o mar cor de vinho torna-se o cenário definitivo da errância sem fim e do desejo humano.
- Amplia a metáfora da ilha: A ilha é perpetuamente fugidia, e as águas que a cercam são igualmente enigmáticas — não azuis, mas vinho — carregadas de intensidade poética e mistério subjacente.
Em resumo
O “mar cor de vinho” é uma imagem homérica intemporal que transcende completamente a descrição física e literal. Mais do que uma escolha de cor, assume-se como uma complexa metáfora cultural e poética. Eugénio de Andrade retoma-a magistralmente para intensificar o caráter mítico e inatingível da ilha, reforçando o tema da busca impossível.