POEMA DE ANTONIO CICERO
Esse poema fica ainda mais interessante quando colocado em contato direto com a tradição filosófica que ele convoca sem nomear.
1. Wittgenstein: apontar não é definir
A expressão “definição ostensiva” vem diretamente da fase inicial da filosofia do Ludwig Wittgenstein, especialmente no Tractatus e depois problematizada nas Investigações Filosóficas.
Na definição ostensiva, a linguagem tenta fixar significado por gesto e indicação: eu aponto e digo “isso é vermelho”, “isso é cadeira”.
Mas Wittgenstein mostra um problema: apontar nunca é neutro. Para entender o gesto, você já precisa saber o jogo de linguagem em que ele funciona.
O poema de Antonio Cicero encena exatamente essa falha:
- ele “aponta” para o cerúleo
- mas em vez de um objeto, entrega uma série de associações instáveis
Ou seja: não há um “isso é cerúleo”, apenas um deslizamento de “parecidos com cerúleo”.
2. Do conceito à rede de semelhanças
O que aparece aqui é muito próximo da ideia wittgensteiniana de semelhanças de família: não há essência comum entre os usos de uma palavra, apenas sobreposições parciais.
“Cerúleo” não é uma essência cromática, mas uma constelação:
- céu (azul atmosférico, distante)
- mar (azul material, profundo)
- olhos (azul corporal, singular)
- cabelos (o azul como desvio)
- noite (azul como ausência de luz)
- morte (azul como apagamento final da percepção)
A palavra não define — ela organiza um campo de ressonância.
3. Poesia conceitual e o colapso da definição
Esse tipo de gesto também se aproxima da poesia conceitual contemporânea: em vez de “expressar sentimentos”, o poema trabalha com o colapso das funções da linguagem descritiva.
Aqui, a definição vira quase uma instalação verbal:
- começa como dicionário
- vira inventário de imagens
- termina como filosofia implícita do limite (noite / morte)
Isso aproxima Cicero de uma tradição que vai de Mallarmé até poetas contemporâneos que tratam palavras como sistemas instáveis, não como veículos de essência.
4. O ponto mais delicado: nomear pessoas
Um aspecto que torna esse poema especialmente tenso é a inclusão de marcadores humanos (“alemães”, “indianos”). Isso desloca o poema do campo puramente abstrato da cor para uma zona onde a linguagem de definição toca a história da classificação dos corpos.
Isso pode ser lido de duas formas ao mesmo tempo:
- como exemplo poético de como associamos cores a traços humanos (linguagem perceptiva e cultural)
- e como evidência de que toda definição ostensiva carrega o risco de transformar o mundo em catálogo
Wittgenstein diria: o significado depende do uso. O poema mostra que o uso nunca é inocente.
5. O cerúleo como falha da linguagem
No fim, o que sobra não é uma definição de “cerúleo”, mas uma espécie de tese implícita:
toda definição ostensiva falha porque o mundo não se deixa apontar sem resto.
O cerúleo vira então não uma cor, mas um efeito:
- de passagem
- de contaminação
- de limite entre ver e nomear