NU-DISCO E +

Nu-disco é, basicamente, a releitura contemporânea da disco music, mas não é simplesmente “disco antiga com produção moderna”.

O que é “nu-disco”?

O nome significa literalmente “new disco”. Surgiu como rótulo para uma cena eletrônica que, sobretudo a partir dos anos 2000, começou a recuperar elementos da disco dos anos 1970 e início dos 1980:

  • baixo funky e muito presente;
  • baterias dançantes, frequentemente com four-on-the-floor;
  • cordas e arranjos orquestrais;
  • grooves de baixo elétrico;
  • guitarras chic e choppy;
  • sintetizadores;
  • vocais pop/soul;
  • uma estética de club, glamour e hedonismo.

Mas tudo isso é produzido com técnicas e sensibilidades da música eletrônica contemporânea.

Disco × nu-disco

Uma maneira simples de entender:

Disco (1970s)

“Vamos fazer uma música para dançar.”

Nu-disco (2000s–2020s)

“Vamos pegar a linguagem da disco, filtrá-la pela música eletrônica e fazê-la funcionar novamente na pista.”

Por isso o nu-disco frequentemente soa mais limpo, minimalista e eletronicamente preciso que a disco original.

Onde entra Sophie Ellis-Bextor?

Aqui fica interessante em relação à sua pergunta anterior.

Sophie não começou fazendo nu-disco. Ela aparece justamente antes de o termo se consolidar.

Groovejet (If This Ain't Love)” (2000), com Spiller, é um excelente exemplo da transição:

house → disco → pop

Depois, Read My Lips (2001) incorpora uma série de elementos disco e dance que posteriormente seriam fundamentais para o nu-disco.

Então, historicamente, Sophie é uma espécie de ponte.

E Dua Lipa?

Future Nostalgia é quase um exemplo perfeito de como o nu-disco chegou ao centro do pop mainstream.

Don't Start Now” tem:

  • baixo inspirado em disco/funk;
  • bateria eletrônica;
  • vocais pop contemporâneos;
  • produção extremamente polida;
  • estrutura pop tradicional;
  • referências a disco sem tentar reproduzir literalmente uma gravação dos anos 1970.

Ou seja:

Donna Summer → disco → house → nu-disco → Dua Lipa

Mas essa linha é simplificada. Há também French house, Italo disco, electro, funk, Hi-NRG e synth-pop envolvidos nessa história.

O detalhe mais importante

Eu não definiria nu-disco apenas pelo som. É também uma relação com o passado.

A disco original surgiu associada a clubes, comunidades negras, latinas e LGBTQ+ e a uma cultura de dança que era relativamente marginal em relação ao rock dominante.

O nu-disco frequentemente transforma essa história em estética pop: baixo disco, cordas, glamour, pista de dança, roupas, nostalgia.

É por isso que existe uma certa tensão crítica interessante:

A disco era uma cultura; o nu-disco pode ser uma estética dessa cultura.

E Dua Lipa é um caso particularmente interessante porque ela pega essa estética e a transforma em pop global de enorme escala.


A diferença entre disco, nu-disco, house, French house, Italo disco e synth-pop

A maneira mais útil é pensar em origem + ritmo + instrumentos + relação com a pista de dança.

1. Disco — a música da pista

Origem: EUA, principalmente início/meados dos anos 1970

Centro: Nova York e Filadélfia

Ideia fundamental: dançar

A disco nasce da cultura de clubes, especialmente de comunidades negras, latinas e LGBTQ+, misturando soul, funk, R&B e música orquestral.

Características:

  • batida 4/4 muito marcada;
  • bumbo em cada tempo:
    BUM – BUM – BUM – BUM
  • baixo dançante;
  • cordas;
  • metais;
  • vocais soul;
  • arranjos exuberantes;
  • músicas relativamente longas.

Exemplos:

Donna Summer – “I Feel Love

Chic – “Good Times

Sylvester – “You Make Me Feel (Mighty Real)

Giorgio Moroder – “The Chase

E “I Feel Love” é particularmente importante porque começa a deslocar a disco em direção à música eletrônica.

2. House — a disco transformada em música eletrônica

Origem: Chicago, início dos anos 1980.

Depois da explosão e posterior reação contra a disco no final dos anos 1970, DJs de clubes negros e LGBTQ+ começam a reconstruir aquela música com drum machines, sintetizadores, samplers e mixers.

O house mantém a lógica:

BUM BUM BUM BUM

mas agora o instrumento principal pode ser uma máquina de bateria.

A grande diferença é que o house é mais eletrônico e repetitivo.

Enquanto uma faixa disco pode ter:

cordas → verso → refrão → ponte → metais → vocal

uma faixa house pode construir:

BUM BUM BUM BUM
baixo
vocal
sintetizador
BUM BUM BUM BUM
durante vários minutos.

Exemplos:

Frankie Knuckles

Marshall Jefferson – “Move Your Body

Mr. Fingers – “Can You Feel It

House é, portanto, uma das grandes pontes entre disco e música eletrônica de pista contemporânea.

3. Italo disco — disco imaginada pela Europa

Aqui a coisa fica mais estranha.

Origem: Itália e Europa, principalmente final dos anos 1970 e anos 1980.

Italo disco pega a ideia de disco e a torna:

  • mais sintética;
  • futurista;
  • melodramática;
  • artificial;
  • frequentemente kitsch;
  • muito dependente de sintetizadores e drum machines.

É uma disco que parece estar olhando para um futuro imaginado em 1983.

Características muito comuns:

🎹 sintetizadores

🥁 drum machines

🎤 vocais masculinos ou femininos muito processados

🌌 temas de espaço, tecnologia, amor, noite

💿 melodias extremamente pegajosas

Exemplos:

Kano – “Another Life

Klein & M.B.O. – “Dirty Talk

Fancy – “Slice Me Nice

Ryan Paris – “Dolce Vita

A diferença fundamental:

Disco:

“Vamos dançar!”

Italo disco:

“Vamos dançar numa discoteca futurista em 1984.”

😄

E ela será importantíssima para o synth-pop, o house e posteriormente o nu-disco.

4. Synth-pop — pop feito com sintetizadores

Origem: Reino Unido/Europa, final dos anos 1970 e principalmente anos 1980.

Aqui muda a prioridade.

O synth-pop não é necessariamente música de pista. É principalmente:

POP + SINTETIZADORES

O sintetizador substitui ou assume funções que antes pertenciam à guitarra, piano, baixo etc.

Exemplos:

The Human League – “Don't You Want Me

Soft Cell – “Tainted Love

Depeche Mode – “Just Can't Get Enough

New Order – “Blue Monday

Pet Shop Boys – “West End Girls

“Blue Monday”, por exemplo, está entre synth-pop, dance, electro e pós-punk — justamente porque essas categorias se sobrepõem.

A estética é frequentemente mais fria, mecânica e minimalista que a disco.

5. French house — a disco sendo desmontada e remontada

Agora chegamos a uma coisa muito importante para entender o pop atual.

Origem: França, anos 1990.

French house é uma vertente da música eletrônica francesa que ficou famosa por utilizar samples de disco e funk, frequentemente cortando, filtrando e repetindo pequenos fragmentos.

O grande princípio é:

pegar uma gravação antiga → cortar → repetir → filtrar → transformar em outra coisa.

Daí o som característico:

sample disco

filtro

compressão

loop

baixo

batida eletrônica

Os maiores nomes:

Daft Punk

Stardust

Cassius

Étienne de Crécy

Music Sounds Better with You”, do Stardust, é praticamente uma aula de French house.

E aqui aparece uma distinção importante:

Disco
toca disco.

French house
sampleia e transforma disco.

6. Nu-disco — a disco volta

Finalmente chegamos ao ponto de partida da sua pergunta sobre Dua e Sophie.

Nu-disco surge principalmente nos anos 2000 como uma recuperação contemporânea da linguagem disco.

Mas há várias maneiras de fazê-la.

Pode ser:

disco + house

ou

disco + electro

ou

disco + funk

ou

disco + synth-pop

ou ainda:

French house + disco original

Artistas importantes incluem:

Lindstrøm

Todd Terje

Dimitri From Paris

Aeroplane

Purple Disco Machine

E depois essa estética entra completamente no pop mainstream.

Então podemos visualizar assim:

                DISCO
                  │
        ┌─────────┴─────────┐
        │                   │
      HOUSE             ITALO DISCO
        │                   │
        │             SYNTH-POP
        │                   │
        └──────┐       ┌────┘
               │       │
          FRENCH HOUSE
               │
               ↓
            NU-DISCO
               │
               ↓
       POP CONTEMPORÂNEO
               │
          DUA LIPA

Mas esse esquema é histórico, não genealógico: French house não é simplesmente uma etapa entre house e nu-disco, por exemplo.

E agora podemos colocar alguns artistas

ArtistaOnde se encaixa melhor
Donna SummerDisco / electronic disco
Giorgio MoroderDisco / electronic disco
SylvesterDisco
Frankie KnucklesHouse
Mr. FingersHouse
KanoItalo disco
Pet Shop BoysSynth-pop / dance
New OrderPost-punk / synth-pop / dance
Daft PunkFrench house / electro / disco
StardustFrench house
Sophie Ellis-BextorDance-pop / disco / nu-disco
Kylie MinogueDance-pop / disco / nu-disco
Jessie WareDisco / nu-disco / dance-pop
Dua LipaDance-pop / nu-disco / disco

E existe uma coisa especialmente interessante aqui:

Sophie Ellis-Bextor está entre duas eras.

Ela surge no começo dos anos 2000, quando house, French house, disco revival e electro-pop estavam se misturando. Por isso Read My Lips pode parecer hoje estranhamente contemporâneo.

Dua Lipa, por outro lado, aparece quando essas experiências já foram absorvidas pelo mainstream.

É quase:

Sophie: “a disco está voltando.”

Dua: “a disco nunca foi embora.”

E isso ajuda bastante a entender por que “Murder on the Dancefloor” e “Don't Start Now” podem soar como parentes separados por vinte anos, mesmo não sendo exatamente o mesmo gênero.