FILOSOFIA DA LINGUAGEM

A filosofia da linguagem é o ramo da filosofia que investiga o que é a linguagem, como ela produz significado e qual é sua relação com o pensamento, a realidade e a comunicação. Embora essas perguntas existam desde a Antiguidade, a disciplina tornou-se central na filosofia dos séculos XIX e XX, chegando a ser chamada por alguns de "a virada linguística" da filosofia.

Pode-se organizá-la em torno de algumas perguntas fundamentais.

1. O que significa uma palavra?

Esta é talvez a questão mais básica. Quando dizemos "árvore", por exemplo, o que faz essa palavra significar uma árvore?

Ao longo da história, surgiram várias respostas:

  • o significado é uma ideia na mente;
  • o significado é o objeto no mundo;
  • o significado depende das relações entre palavras;
  • o significado depende do uso que fazemos delas.

Essa última posição ficou célebre em Wittgenstein:

"O significado de uma palavra é seu uso na linguagem."

Ou seja, compreender uma palavra não é possuir uma definição mental, mas saber participar das práticas em que ela funciona.

2. Como a linguagem se relaciona com o mundo?

Quando digo:

"Está chovendo."

Essa frase descreve um fato? Representa a realidade? Ou apenas realiza uma ação social?

Essa questão atravessa boa parte da filosofia analítica.

Frege distinguiu entre:

  • referência (aquilo de que falamos);
  • sentido (a maneira pela qual apresentamos esse objeto).

Russell investigou como frases aparentemente simples escondem estruturas lógicas complexas.

Kripke mostrou que certos nomes próprios não funcionam como descrições, mas como designadores rígidos.

3. A linguagem molda o pensamento?

Essa pergunta aproxima filosofia, psicologia e linguística.

Será que pensamos antes de falar?

Ou pensamos através da linguagem?

Algumas posições importantes:

  • Humboldt via cada língua como uma visão de mundo.
  • Sapir e Whorf defenderam versões da hipótese de que a língua influencia o pensamento.
  • Chomsky argumentou que existe uma estrutura mental anterior às línguas particulares.

Já autores posteriores, como Davidson, questionaram a própria ideia de que pensamento e linguagem possam ser completamente separados.

4. Como conseguimos nos entender?

Quando duas pessoas conversam, como sabem o que a outra quis dizer?

Aqui entram autores como:

Grice

Mostrou que muito do significado não está nas palavras, mas na intenção comunicativa.

Se alguém diz:

"Está frio aqui."

Talvez não esteja apenas descrevendo a temperatura.

Pode estar pedindo que fechem a janela.

Nasce daí a teoria das implicaturas.

5. A linguagem apenas descreve?

Austin revolucionou essa ideia.

Quando alguém diz:

"Eu prometo."

Não está descrevendo uma promessa.

Está fazendo uma promessa.

Daí surgem os atos de fala, desenvolvidos depois por Searle.

A linguagem passa a ser vista como ação.

6. A linguagem é um sistema?

Essa pergunta caracteriza muito do estruturalismo.

Saussure propôs que cada palavra vale não por possuir um significado isolado, mas por ocupar uma posição dentro de um sistema de diferenças.

Assim,

"gato"

significa o que significa porque não é

"rato",

"cão",

"pato"

etc.

O sentido nasce das relações.

Essa ideia influenciou profundamente Lévi-Strauss, Barthes, Lacan e muitos outros.

7. Existe algo além da linguagem?

Aqui entram os filósofos continentais.

Heidegger afirmava:

"A linguagem é a casa do ser."

Ou seja, não usamos simplesmente a linguagem para falar do mundo.

É dentro dela que o mundo se torna inteligível.

Gadamer mostrará que toda compreensão acontece linguisticamente.

8. A linguagem é sempre transparente?

Aqui aparece Derrida.

Segundo ele, nunca chegamos a um significado completamente presente.

Cada palavra remete a outras palavras.

O significado está sempre sendo adiado.

Daí sua noção de différance.

9. Quem controla a linguagem?

Para Foucault, a linguagem nunca é neutra.

Os discursos produzem saberes, instituições e formas de poder.

Não perguntamos apenas:

"O que esta frase significa?"

Mas:

"Quem pode dizê-la?"
"Em que contexto?"
"Com quais efeitos?"

10. A linguagem pode dizer tudo?

Essa pergunta acompanha a filosofia desde Platão.

Ela reaparece em Wittgenstein.

No final do Tractatus, ele escreve:

"Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar."

Já seu pensamento posterior abandonará a busca por uma linguagem ideal e enfatizará a multiplicidade dos "jogos de linguagem": falar, perguntar, rezar, brincar, narrar, ordenar, poetizar — cada atividade possui suas próprias regras.

Duas grandes tradições

Embora haja muitos cruzamentos, costuma-se distinguir duas orientações principais.

A tradição analítica (Frege, Russell, Wittgenstein, Austin, Kripke, Davidson) tende a investigar:

  • significado;
  • referência;
  • lógica;
  • verdade;
  • comunicação.

A tradição continental (Heidegger, Gadamer, Derrida, Foucault, Ricoeur) enfatiza:

  • interpretação;
  • historicidade;
  • discurso;
  • poder;
  • experiência;
  • limites da linguagem.

Hoje essa divisão é menos rígida do que já foi, e muitos filósofos dialogam com ambas.

Por que ela importa?

A filosofia da linguagem não trata apenas das palavras. Ela pergunta se o mundo nos aparece tal como é ou tal como conseguimos dizê-lo. Quando investigamos como os signos significam, como os discursos moldam práticas sociais ou como a poesia cria novas formas de experiência, estamos explorando questões centrais desse campo.