MÔNADAS INCOMUNICÁVEIS

Essa expressão é muito característica do repertório do psicanalista Pedro de Santi. Embora "mônadas incomunicáveis" remeta diretamente à filosofia de Gottfried Wilhelm Leibniz, Pedro de Santi a emprega num contexto contemporâneo, aproximando-a da crítica das redes sociais, da psicanálise e da cultura digital.

Em Leibniz, as mônadas são substâncias indivisíveis que constituem a realidade. Cada mônada é um mundo em si mesma: ela reflete o universo inteiro, mas não mantém contato causal com as outras. Daí a célebre expressão de que as mônadas "não têm janelas". Elas coexistem, mas não se comunicam diretamente.

Pedro de Santi parece deslocar essa ideia para descrever a experiência produzida pelos algoritmos. O algoritmo parte do pressuposto de que seus gostos passados definem quem você é. Em vez de colocá-lo diante do estranho, do inesperado, do conflito ou da alteridade, ele o cerca de confirmações. Você passa a habitar um universo em que tudo devolve a sua própria imagem.

Por isso ele diz:

"Eu fico ouvindo minha rádio e acho que o mundo é eu."

Essa frase é praticamente uma definição da mônada contemporânea. Não se trata apenas de isolamento físico, mas de um fechamento perceptivo. A pessoa continua cercada de milhões de indivíduos, porém sua experiência do mundo vai sendo progressivamente filtrada para que encontre apenas versões de si mesma.

A palavra "incomunicáveis" também merece atenção. Não significa simplesmente que as pessoas não conversam. Elas até conversam, mas cada uma fala de dentro de um universo que se tornou autorreferente. Quando finalmente encontram alguém que pensa diferente, o choque não é apenas intelectual; é quase ontológico:

"Como assim você não é eu?"

Esse trecho lembra muito a ideia de que a alteridade deixa de ser uma experiência cotidiana e passa a ser uma ameaça.

Há aí ecos de vários pensadores contemporâneos. Byung-Chul Han descreve a "sociedade do igual", em que a diferença é continuamente eliminada em favor do mesmo. A positividade algorítmica substitui o encontro com o outro por uma repetição do próprio sujeito. Em Jean Baudrillard, poderíamos falar de um universo de simulacros que já não remete ao real, mas apenas reproduz seus próprios signos. E, na psicanálise, há também uma afinidade com a crítica ao narcisismo: o eu deixa de ser atravessado pelo desejo do outro e passa a consumir incessantemente sua própria imagem.

O detalhe mais interessante da fala de Pedro de Santi, porém, está logo no começo:

"O pressuposto do algoritmo é que eu gosto de mim... Eu não gosto de mim."

Essa é uma observação profundamente psicanalítica. O algoritmo supõe um sujeito coerente, estável e transparente para si mesmo. A psicanálise, ao contrário, parte da ideia de que somos divididos, contraditórios e frequentemente estranhos a nós mesmos. Desejamos justamente aquilo que não sabemos que desejamos. O algoritmo reduz essa complexidade a um histórico de cliques.

Assim, as "mônadas incomunicáveis" não são apenas indivíduos isolados. São sujeitos cuja relação com o mundo foi substituída por uma circulação incessante do mesmo: cada um vive dentro de uma arquitetura que confirma suas preferências, suas crenças e sua identidade, até que a diferença deixa de ser uma oportunidade de transformação e passa a parecer uma anomalia. É essa passagem — do encontro com o outro para o confinamento no próprio reflexo — que Pedro de Santi parece condensar na metáfora leibniziana.