O HUMANISMO RENASCENTISTA
A Reconciliação do Ser com a Sua Liberdade
O Humanismo foi um movimento intelectual, cultural e filosófico que emergiu na Itália durante o século XIV, estendendo-se por toda a Europa ao longo do Renascimento. Longe de significar uma negação da fé ou um ateísmo precoce, o humanismo caracterizou-se pela transição de um teocentrismo rígido para uma perspectiva antropocêntrica, resgatando a herança clássica greco-romana para colocar o ser humano, seu intelecto e sua capacidade de livre-arbítrio no centro da reflexão e do agir.
Os pensadores desse período defendiam que a razão, a linguagem, o estudo das artes liberais e a capacidade de deliberação moral eram as verdadeiras expressões da dignidade do indivíduo.
Principais Autores e Trechos Fundamentais
1. Giovanni Pico della Mirandola (1463–1494)
Filósofo italiano e autor de uma das obras-chave do Humanismo, a Oratio de hominis dignitate (Discurso sobre a Dignidade do Homem). Em sua célebre alegoria da criação, a divindade dirige-se a Adão:
"Não te demos nem um lugar determinado, nem um aspecto que te seja próprio, nem tarefa alguma específica, a fim de que obtenhas e possuas aquele lugar, aquele aspecto, aquela tarefa que tu seguramente desejares, tudo segundo o teu parecer e a tua decisão. A natureza bem definida dos outros seres é refreada por leis por nós prescritas. Tu, pelo contrário, não constrangido por nenhuma limitação, determiná-la-ás para ti, segundo o teu arbítrio, a cujo poder te entreguei."
2. Francesco Petrarca (1304–1374)
Frequentemente reconhecido como o "pai do Humanismo", o poeta e erudito italiano buscou nas letras antigas a elevação do espírito e o autoconhecimento. Em seu De vita solitaria (A Vida Solitária), reflete sobre o papel da contemplação e do estudo:
"Onde as letras habitam, aí está a verdadeira pátria do espírito humano; pois através do livro o homem conversa com as mentes mais nobres do passado e descobre a medida exata da sua própria essência."
3. Desiderius Erasmus de Roterdã (1466–1536)
Humanista holandês pertencente ao chamado humanismo cristão, defendeu a educação cívica e moral com base na razão e nos textos eruditos. Em De pueris instituendis (Da Educação dos Meninos), escreveu:
"Os homens não nascem homens, tornam-se homens pela educação e pela cultura."
4. Michel de Montaigne (1533–1592)
Ensaísta e filósofo francês que levou a perspectiva humanista à esfera da autoinspecção subjetiva em seus Essais (Ensaios). No Livro III, afirma sobre a condição humana e a universalidade da experiência:
"Cada homem carrega em si a forma inteira da humana condição."
Em suma, o Humanismo redefiniu o alcance do potencial humano ao valorizar a autonomia, o saber crítico e a plasticidade do indivíduo diante da sua própria existência.