A PRISÃO DOS NOMES
Há uma distinção fundamental que muitas vezes se perde quando falamos de gênero: sexo, gênero, expressão de gênero e orientação sexual não são a mesma coisa.
Biologicamente, a espécie humana é sexualmente dimórfica, organizada reprodutivamente em torno de dois sexos, macho e fêmea, embora existam variações do desenvolvimento sexual. Sobre essa base biológica, porém, cada sociedade constrói diferentes significados para o masculino e o feminino. Esses significados não são imóveis: transformam-se conforme o tempo, o lugar, a cultura e as relações sociais.
Basta olhar para a história para perceber isso. Homens já usaram roupas, ornamentos, cabelos, maquiagem e outros elementos que hoje associamos ao feminino; mulheres, por sua vez, exerceram funções e adotaram comportamentos que em outras épocas seriam considerados exclusivamente masculinos. O que uma sociedade chama de masculino ou feminino nunca foi inteiramente determinado pela biologia. Há sempre uma dimensão histórica e cultural nessa classificação.
Também sempre existiram pessoas cuja maneira de viver, vestir-se, comportar-se ou desejar não se ajustava perfeitamente às normas de seu tempo. Isso não significa que essas pessoas possam ser simplesmente traduzidas para as categorias identitárias que utilizamos hoje. Significa apenas que a experiência humana sempre foi mais variada do que os modelos rígidos de masculinidade e feminilidade que cada sociedade tentou estabelecer.
Talvez uma das características mais interessantes do presente seja justamente a enorme quantidade de palavras que temos à disposição para descrever essas experiências. Isso pode ser libertador. Uma pessoa pode finalmente encontrar uma palavra que lhe permita compreender algo que antes parecia inexplicável. Mas há também um outro lado: quando temos muitas categorias disponíveis, pode surgir a sensação de que devemos necessariamente encontrar uma delas para nós.
A internet intensificou esse fenômeno. Somos continuamente convidados a dizer quem somos, a explicar nossas preferências, nossos desejos, nossa personalidade, nosso gênero, nossa sexualidade. A identidade deixa de ser apenas algo vivido e passa a ser também algo que precisa ser nomeado, declarado e apresentado aos outros.
É aí que talvez exista uma questão mais profunda do que a simples discussão sobre quantos gêneros existem. Por que sentimos tanta necessidade de transformar nossa experiência em uma identidade definida?
Uma categoria pode ser útil sem ser uma essência. Podemos utilizar uma palavra para descrever uma experiência sem acreditar que essa palavra esgota aquilo que somos. Da mesma maneira, alguém pode preferir determinado pronome sem que isso implique possuir uma definição metafísica completa e permanente de si mesmo. A linguagem pode ser uma ferramenta de relação, não necessariamente uma declaração sobre uma essência imutável.
Somos, afinal, menos estáveis do que as palavras que utilizamos para nos descrever. Não apenas o desejo e a sexualidade podem mudar; também mudam nossos comportamentos, nossa aparência, nossas relações com o masculino e o feminino, aquilo que desejamos ser e aquilo que deixamos de desejar. Uma pessoa pode experimentar diferentes formas de si mesma ao longo da vida sem que todas essas formas precisem ser reunidas sob uma identidade definitiva.
Talvez a verdadeira liberdade esteja também no direito de permanecer indeterminado.
Isso não significa negar as identidades de quem encontra nelas uma forma necessária de reconhecimento. Significa apenas admitir que ninguém deveria ser obrigado a transformar toda a complexidade de sua experiência em uma definição. A identidade pode ser uma casa, mas também pode se tornar uma prisão quando passamos a acreditar que precisamos permanecer dentro dela para continuar sendo quem somos.
O problema, portanto, talvez não esteja na transformação da identidade em uma obrigação de definição.
Nenhuma palavra consegue conter inteiramente uma pessoa. Podemos dizer quem somos, mas sempre haverá alguma coisa em nós que escapa ao nome.