O CRETINO FUNDAMENTAL
O “cretino fundamental” é uma das figuras mais famosas inventadas por Nelson Rodrigues. Não é uma pessoa específica: é um tipo humano, um personagem recorrente das crônicas dele.
Para Nelson, o cretino fundamental é, sobretudo, aquele que não consegue reconhecer o óbvio. Ele pode até ter inteligência, informação ou argumentos; o problema é que sua inteligência fica subordinada à convicção, à vaidade ou à necessidade de estar certo.
Há uma diferença interessante entre simplesmente ser burro e ser um cretino fundamental:
o burro pode não entender; o cretino fundamental entende apenas aquilo que confirma sua posição.
E há uma dimensão social nisso. Nelson percebe que o cretino raramente está sozinho: quando um começa a defender uma ideia absurda com suficiente segurança, outros se agrupam em torno dele, transformando a própria repetição em aparência de verdade. O próprio site dedicado a Nelson resume essa figura como um dos “personagens-tipo” recorrentes das crônicas.
E por que “fundamental”?
É justamente aí que a expressão fica engraçada e inteligente.
“Fundamental” dá ao cretino uma espécie de dignidade filosófica. Não é simplesmente um idiota. É quase uma categoria ontológica: existe uma espécie humana cuja relação fundamental com o mundo é deturpar o óbvio ululante.
Nelson chegou a dizer que vivíamos numa época em que “os cretinos fundamentais se revoltam” e que a constante dos seres humanos seria a burrice.
E há ainda um aspecto muito rodriguiano: o cretino fundamental é particularmente perigoso quando acredita estar sendo racional. Ele não precisa ser ignorante. Pode ser jornalista, intelectual, comentarista, professor, político. O que o caracteriza é a incapacidade de reconhecer aquilo que está diante dos olhos quando isso ameaça sua narrativa.
Por isso a expressão continua tão atual. O cretino fundamental é, em certo sentido, o sujeito que transforma opinião em realidade e depois exige que a realidade concorde com sua opinião.