O QUE É HIPERPOLITIZAÇÃO?

Hiperpolitização pode ser entendida, de maneira simples, como uma situação em que a política deixa de ser uma esfera relativamente delimitada da vida social e passa a organizar a interpretação de quase tudo.
Isso é um pouco diferente de simplesmente haver muita participação política.

1. Política como uma esfera entre outras

Numa concepção mais tradicional das democracias liberais, há uma certa separação entre esferas:

  • política: eleições, partidos, governo, parlamento;
  • trabalho;
  • família;
  • amizades;
  • lazer;
  • arte;
  • relião;
  • vida privada etc.

Essas esferas evidentemente nunca são completamente apolíticas. Questões de gênero, classe, raça, direitos, dinheiro, leis etc. atravessam todas elas. Mas existe a expectativa de que nem toda relação humana seja interpretada primariamente como uma disputa política.
Por exemplo, duas pessoas podem discordar sobre um filme e simplesmente discordar sobre estética, gosto ou interpretação.

2. O que muda com a hiperpolitização

Na hiperpolitização, aumenta a tendência de interpretar acontecimentos e relações através da pergunta:

"De que lado político isso está?"

Então uma opinião sobre um filme pode ser interpretada como expressão de uma ideologia; uma escolha de consumo pode ser lida como posicionamento político; uma amizade pode ser afetada pela posição política da pessoa; uma obra literária pode ser julgada sobretudo pelo grupo político que parece representar ou contrariar.
A política passa, portanto, de uma dimensão da experiência para algo parecido com uma chave geral de interpretação da experiência.
É nesse sentido que o trecho que você estava transcrevendo fala em:

"toda a vida das pessoas se dá dentro da política"

E a consequência mencionada ali — "concorrência pelo poder" — é importante. A hiperpolitização não significa simplesmente que as pessoas ficaram mais interessadas em política. Significa que relações que antes podiam ser vividas em registros diferentes começam a adquirir a estrutura de uma disputa entre campos, grupos ou identidades.

3. Da discordância ao antagonismo

Isso produz algo que podemos chamar de politização das diferenças.
Imagine:

Discordância:

"Não gosto dessa interpretação do poema."

Politização:

"Essa interpretação revela uma determinada posição ideológica."

Antagonização:

"Se você defende essa interpretação, você pertence ao outro grupo."

Nesse último estágio, a questão deixa de ser apenas o que você pensa sobre determinada coisa e passa a ser quem você é em relação aos outros.
É aí que entra o tribalismo mencionado no trecho. Se cada questão pode revelar a qual "lado" alguém pertence, a sociedade tende a se dividir em campos permanentes de pertencimento e oposição.

4. Mas há uma ambiguidade importante

"Hiperpolitização" não é necessariamente um conceito usado de maneira neutra. É frequentemente uma categoria crítica, empregada por pessoas que consideram excessiva a expansão da lógica política para outras áreas da vida.
E existe uma objeção importante:

talvez aquilo que parece "hiperpolitização" seja, em certos casos, simplesmente o reconhecimento de que algo que parecia privado sempre teve dimensões políticas.

Por exemplo, alguém pode dizer que relações familiares, sexualidade, trabalho ou linguagem são políticas porque envolvem poder, normas e desigualdades. Nesse sentido, aquilo que uma época chamava de "vida privada" poderia esconder relações de poder que outra época passou a enxergar.
Então há uma tensão interessante entre duas concepções:

Politização como revelação:

"Percebemos que havia poder onde antes fing tínhamos que não havia."

Hiperpolitização como colonização:

"Passamos a enxergar poder e conflito político em praticamente tudo, tornando difícil experimentar algo fora dessa lógica."

E o trecho que você trouxe parece claramente estar trabalhando com a segunda acepção.
Talvez a formulação mais precisa seja: hiperpolitização é a expansão da lógica de conflito, poder, pertencimento e antagonismo político para domínios cada vez maiores da experiência social, até que a distinção entre "vida política" e "vida não política" se torne muito difícil de sustentar.