SYLVIA PLATH E A ARMADILHA BIOGRÁFICA

O movimento mais interessante da crítica contemporânea é perguntar por que Plath foi transformada em um determinado tipo de poeta — e quem se beneficia dessa transformação.

Há pelo menos cinco aspectos importantes.

1. Plath foi transformada em personagem antes de ser lida como poeta

Uma das críticas mais fortes é àquilo que Heather Clark chama de “P(l)athography”: a mistura de Plath, pathology e biography. A ideia é que uma enorme quantidade da recepção de Plath transformou sua vida em uma espécie de chave explicativa de sua poesia. Clark observa que sua relação com a poesia, sua formação intelectual e suas escolhas formais podem dizer muito mais sobre seus poemas do que, por exemplo, sua relação com o pai ou seu suicídio.

Isso produz uma leitura quase circular:

Plath sofreu → escreveu poemas sobre sofrimento → portanto os poemas provam que ela sofria → seu suicídio confirma os poemas → o suicídio explica os poemas.

Ou seja, a morte passa a funcionar como certificado de autenticidade estética.

Susan Van Dyne já identificava esse problema de maneira muito precisa: criou-se uma narrativa segundo a qual o suicídio de Plath “autenticaria” a verdade dos poemas, como se a relação entre sofrimento vivido e criação poética fosse transparente e inevitável.

E isso é bastante estranho quando pensamos em outros poetas. Não costumamos dizer que a morte de um poeta transforma retroativamente cada metáfora em documento biográfico.

2. “Confessional poet” talvez seja uma categoria insuficiente para Plath

Esse é outro ponto importante.

Plath foi colocada no mesmo grande compartimento de Robert Lowell, Anne Sexton e outros poetas confessionais. Mas há uma crítica crescente à ideia de que seus poemas simplesmente “confessam” experiências pessoais.

O poema de Plath frequentemente fabrica uma persona, teatraliza uma situação, incorpora mitologia, literatura, história, personagens, vozes e máscaras.

“Daddy”, por exemplo, não é simplesmente:

Sylvia Plath conta sua relação traumática com o pai.

É uma construção extraordinariamente artificial: nazismo, vampirismo, casamento, infância, perseguição, alemão, boneca, cadáver, ritual etc. são comprimidos numa persona lírica que não pode ser simplesmente identificada com Sylvia Plath.

Uma pesquisa recente sobre a recepção de Ariel inclusive observa que a leitura exclusivamente confessional/biográfica mistura dois níveis ontológicos diferentes: a pessoa que escreve e a persona que existe dentro do poema.

Por isso, talvez seja mais produtivo dizer:

Plath usa material autobiográfico para produzir poesia; isso não significa que a poesia seja autobiografia.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a leitura.

3. Existe uma crítica feminista à própria maneira como Plath foi transformada em “mulher louca”

Aqui a questão fica ainda mais interessante.

Durante décadas, houve uma espécie de fórmula cultural:

mulher + depressão + casamento problemático + sexualidade + suicídio + poesia = Sylvia Plath.

Heather Clark observa justamente como Plath foi sucessivamente enquadrada como poeta feminista, confessional e “louca”, e procura uma leitura que escape dessas abordagens patologizantes.

Isso não significa negar sua doença ou seu sofrimento. A crítica é outra: por que esses elementos se tornaram tão dominantes na interpretação de sua obra?

E há aí uma questão de gênero.

Um homem que escreve sobre sua doença mental pode ser descrito como alguém que transforma a experiência em forma literária. Uma mulher que escreve sobre a própria experiência frequentemente corre o risco de ser lida como alguém que “expõe” sua intimidade.

É justamente aqui que o trabalho de Janet Badia é importante. Ela demonstra como a recepção de Plath construiu também um estereótipo de sua leitora: a jovem mulher supostamente fascinada de maneira mórbida pela poeta suicida. Essa figura da “leitora doente de Plath” acaba servindo para deslegitimar tanto Plath quanto suas leitoras.

Ou seja: não se patologizou apenas a poeta; patologizou-se também quem a lê.

4. O problema não é apenas “biografizar” Plath — é que a própria cultura produziu uma Plath

Esse talvez seja o ponto que eu considero mais sofisticado.

A imagem que temos de Plath não vem apenas dos poemas. Ela foi produzida por:

  • biografias;
  • edições de Ariel;
  • prefácios;
  • seleção e organização dos poemas;
  • cartas;
  • diários;
  • entrevistas;
  • fotografias;
  • Ted Hughes;
  • Frieda Hughes;
  • filmes;
  • romances;
  • jornalismo;
  • crítica acadêmica;
  • e, posteriormente, a cultura de fãs.

A crítica contemporânea está muito interessada nesse “afterlife” de Plath.

Jacqueline Rose é fundamental aqui: a própria “Sylvia Plath” que recebemos é inseparável das instituições, editores, familiares, biógrafos e leitores que falaram sobre ela e, de certo modo, passaram a falar por ela. Um estudo brasileiro recente retoma justamente essa ideia de que a “fantasia cultural” produzida em torno de Plath é inseparável dos mecanismos de edição, biografia e memorialização de sua obra.

Isso produz uma pergunta fascinante:

quanto da Sylvia Plath que conhecemos é Sylvia Plath, e quanto é uma personagem cultural chamada “Sylvia Plath”?

5. E há uma crítica ainda mais radical: talvez estejamos lendo Ariel errado

Essa questão é particularmente importante.

O Ariel que se tornou canônico não corresponde simplesmente ao manuscrito que Plath deixou. A organização póstuma de Ted Hughes alterou significativamente a arquitetura do livro.

Isso importa porque a ordem dos poemas cria uma narrativa. E essa narrativa pode fazer parecer que os poemas conduzem inevitavelmente à morte.

Alguns estudos sobre as diferentes versões de Ariel mostram justamente como reconstruir a versão original modifica a relação que estabelecemos entre os poemas e o suicídio de Plath.

Então a pergunta deixa de ser:

“O que os poemas de Plath dizem sobre seu suicídio?”

e passa a ser:

“Como determinadas decisões editoriais fizeram os poemas parecerem dizer isso?”

Essa é uma mudança crítica enorme.

Quando você lemos Plath prestando atenção a versos como “I dream that I am Oedipus”, ou “Fixed vortex on the far Tip, riveting stones, air, / All of it, together” — há algo que a leitura biográfica tende a apagar.

Ela tende a perguntar:

O que aconteceu com Sylvia para ela escrever isso?

Enquanto uma leitura formal/poética pergunta:

O que o poema está fazendo com linguagem, mito, imagem, voz, sujeito e percepção?

Essa segunda pergunta pode revelar uma Plath muito mais estranha.

Em vez de uma poeta que simplesmente expressa um eu ferido, temos uma poeta que frequentemente desorganiza o próprio conceito de eu.

O “eu” de Plath muda de escala, de identidade e de estatuto o tempo inteiro: mulher, criança, filha, mãe, amante, vítima, assassina, judeu, nazista, Ofélia, Electra, Édipo, cadáver, vampiro, animal, objeto. Não é simplesmente um “eu autobiográfico”. É quase uma máquina de metamorfoses.

E isso torna muito mais interessante esta frase de Plath:

“I am no more a poet than I am a horse.”

A tradição crítica muitas vezes fez dela justamente o contrário: a poeta que é inseparável da própria vida.

A crítica mais interessante hoje tenta desmontar essa equivalência.

E talvez a formulação mais radical seja esta: o problema não é que tenhamos lido Plath biograficamente demais; é que transformamos a biografia em uma espécie de destino formal da poesia dela.