MEISTER ECKHART

Meister Eckhart (c. 1260–1328) foi um teólogo, filósofo e místico alemão, pertencente à ordem dos dominicanos. É considerado uma das figuras mais importantes da mística cristã medieval e um pensador cuja influência ultrapassou os limites da teologia, alcançando a filosofia moderna e contemporânea.

Seu pensamento é particularmente interessante porque procura compreender a relação entre Deus, o ser humano, a consciência e o nada

1. A ideia central: o desprendimento (Gelassenheit)

Uma das ideias fundamentais de Eckhart é o desprendimento (Abgeschiedenheit), isto é, a libertação interior de tudo aquilo que ocupa e condiciona a consciência: desejos, representações, expectativas, posses e até mesmo imagens que fazemos de Deus.

Para ele, o ser humano precisa esvaziar-se interiormente para que Deus possa nascer na alma.

Esse nascimento não é simplesmente uma metáfora para a conversão religiosa. É uma experiência espiritual radical: Deus não deve ser apenas conhecido como um objeto exterior, mas experimentado no fundo mais íntimo da existência.

2. O fundo da alma e a relação com Deus

Eckhart desenvolve uma concepção bastante singular da interioridade.

Ele fala de um Grund, o fundo ou fundamento da alma, um lugar interior que não pode ser alcançado pelo pensamento discursivo, pelas imagens ou pelas categorias habituais da linguagem.

Nesse fundo, a alma encontra uma dimensão que não está submetida às distinções comuns entre sujeito e objeto.

Há aqui uma afirmação surpreendente: para encontrar Deus, é necessário abandonar até mesmo a ideia que temos de Deus.

Em outras palavras, enquanto procuramos Deus como alguma coisa exterior a nós, permanecemos separados dele.

3. O nada e o esvaziamento

Talvez seja este o aspecto mais filosoficamente interessante de Eckhart.

Seu pensamento trabalha com uma espécie de negatividade: para alcançar o absoluto, é necessário abandonar todas as determinações particulares.

Não se trata exatamente de afirmar que Deus é nada, mas de reconhecer que Deus não pode ser apreendido por nenhuma das categorias com as quais compreendemos os entes.

Deus está além das representações que fazemos dele.

Essa perspectiva aproxima Eckhart, com as devidas diferenças, de algumas tradições da teologia negativa (via negativa), especialmente Pseudo-Dionísio Areopagita.

4. A controvérsia religiosa

Suas ideias provocaram suspeitas na Igreja.

Em 1326, Eckhart foi acusado de heresia pela Inquisição de Colônia. Morreu provavelmente em 1328, antes da conclusão do processo.

Em 1329, o papa João XXII publicou a bula In agro dominico, condenando algumas de suas proposições.

Isso não significa que todo o seu pensamento tenha sido considerado herético, mas revela o caráter radical de determinadas formulações sobre a união entre Deus e a alma.

5. Sua importância para a filosofia contemporânea

Eckhart foi redescoberto por diversos pensadores modernos e contemporâneos.

Algumas aproximações interessantes:

- Heidegger: a questão do ser, a superação das representações metafísicas e o desprendimento em relação à compreensão instrumental do mundo. Heidegger demonstrou interesse pela mística medieval, embora sua relação com Eckhart seja objeto de interpretações distintas.

- Martin Buber: a questão da relação entre o ser humano e o absoluto, embora suas concepções sejam bastante diferentes.

- Erich Fromm: o desprendimento em relação à posse e ao desejo de apropriação, especialmente em sua distinção entre ter e ser.

- Schopenhauer: a renúncia à vontade individual e a superação do apego ao mundo fenomênico. Há afinidades, mas não identidade entre os dois.

- Simone Weil: a atenção, o esvaziamento do eu e a necessidade de abandonar a centralidade do sujeito.

Uma observação filosófica: acho especialmente fecunda a relação entre Eckhart e a questão da linguagem.

Ele parece reconhecer que a linguagem, ao nomear Deus, simultaneamente o delimita. O pensamento precisa, portanto, chegar a um ponto em que suas próprias categorias sejam abandonadas.

Há uma tensão muito interessante entre a necessidade de dizer e a impossibilidade de dizer.

É justamente aí que Eckhart pode dialogar com Heidegger, Derrida e, por outro caminho, com a reflexão de Henri Meschonnic sobre os limites da linguagem.

Uma frase frequentemente associada ao seu pensamento resume essa disposição:

Peço a Deus que me livre de Deus.

A formulação é paradoxal, mas expressa algo essencial: libertar-se do Deus que construímos mentalmente para encontrar aquilo que não pode ser reduzido às nossas representações.