PICO DELLA MIRANDOLA

Pico della Mirandola (1463–1494) é uma figura particularmente interessante porque está num ponto de passagem: ainda pensa dentro de um universo cristão medieval, mas formula uma imagem do ser humano que se tornará profundamente moderna. O centro de sua filosofia é a liberdade humana como indeterminação: o homem não recebe uma natureza completamente acabada; recebe a possibilidade de se fazer.

O texto decisivo é o Oratio de hominis dignitate (Discurso sobre a dignidade do homem), escrito em 1486 e publicado postumamente. Mas é importante não reduzir Pico à famosa ideia de "o homem pode ser o que quiser". O argumento é mais complexo.

1. O homem como ser sem lugar fixo

Pico imagina Deus, no momento da criação, dirigindo-se ao homem mais ou menos assim:

"Não te dei, Adão, nem lugar determinado, nem aspecto próprio, nem dom particular."

A ideia fundamental é extraordinária para o século XV: enquanto os outros seres recebem uma natureza determinada — o animal é animal, o anjo é anjo, uma planta é uma planta — o homem recebe uma condição aberta.

Por isso Pico escreve que o homem pode:

  • descer até a condição dos animais;
  • elevar-se à condição dos seres divinos;
  • ou permanecer num ponto intermediário.

A dignidade humana nasce justamente dessa plasticidade.

Não somos superiores simplesmente porque possuímos uma propriedade específica. Somos singulares porque podemos transformar nossa própria maneira de existir.

2. Liberdade não significa simplesmente "fazer qualquer coisa"

Esse é um ponto importante.

A liberdade de Pico não é a liberdade moderna de escolha entre opções.

É algo mais radical: a possibilidade de tornar-se.

O homem é como uma matéria capaz de receber diferentes formas. Sua vida é, portanto, uma espécie de autoconstrução ontológica.

Ele pode viver de maneira inferior, dominado pelos apetites, ou pode reorganizar-se interiormente e aproximar-se daquilo que Pico chama de divino.

Há aqui uma consequência interessante:

a humanidade não é inteiramente uma condição dada; é também uma tarefa.

Você nasce humano, mas precisa realizar sua humanidade.

3. O homem como microcosmo

Pico recupera uma ideia antiga, especialmente presente no neoplatonismo e no hermetismo: o homem como microcosmo.

O universo possui diferentes níveis:

matéria → vida → animalidade → razão → intelecto → divino

O homem participa de todos esses níveis.

Ele possui corpo, sensibilidade, imaginação, razão e intelecto. Por isso pode funcionar como uma espécie de ponto de articulação entre os diferentes estratos do cosmos.

Isso explica uma coisa muito característica do pensamento renascentista: o homem não é simplesmente colocado contra o universo. Ele é uma espécie de miniatura do universo.

4. Ascensão: tornar-se semelhante ao divino

Daí vem o aspecto quase místico de Pico.

O homem pode começar no nível corporal e sensível e realizar uma ascensão:

corpo → sentidos → imaginação → razão → intelecto → contemplação → união com o divino

Essa ascensão não significa abandonar simplesmente o corpo.

Significa transformar a relação com ele.

O conhecimento funciona como uma forma de elevação. Quanto mais o homem compreende a estrutura do real, mais consegue libertar-se da existência puramente instintiva.

Aqui aparece a influência de:

  • Platão;
  • Plotino;
  • neoplatonismo;
  • Aristóteles;
  • Agostinho;
  • tradição judaica;
  • cabala;
  • hermetismo;
  • cristianismo.

Pico tenta colocar todas essas tradições dentro de uma arquitetura filosófica comum.

5. A famosa prisca theologia

Esse é um dos aspectos mais fascinantes — e mais problemáticos — de seu pensamento.

Pico acreditava que diferentes tradições filosófico-religiosas poderiam conservar fragmentos de uma sabedoria primordial, uma verdade antiga anterior às divisões históricas entre religiões.

É a ideia da prisca theologia: uma espécie de teologia primordial transmitida através dos tempos.

Por isso ele podia colocar em diálogo:

Moisés + Platão + Hermes Trismegisto + Zoroastro + Plotino + cabala + cristianismo.

A verdade seria uma, embora aparecesse sob diferentes linguagens históricas.

Isso dá à filosofia de Pico um caráter quase "sincrético": ele não quer simplesmente escolher uma tradição contra as outras; quer reconstruir uma unidade perdida do conhecimento.

6. A cabala como instrumento filosófico

Pico foi também um dos primeiros grandes intelectuais cristãos europeus a incorporar sistematicamente a Cabala judaica à filosofia cristã.

Ele acreditava que determinados ensinamentos cabalísticos poderiam revelar sentidos ocultos da Bíblia e, sobretudo, fornecer argumentos em favor de verdades cristãs.

Aqui encontramos uma característica muito renascentista:

ler um texto não apenas pelo que ele diz explicitamente, mas pelo que está oculto em sua estrutura, seus símbolos e suas relações.

A linguagem passa a possuir uma profundidade quase ontológica.

Isso talvez seja especialmente interessante para você: em Pico, interpretar é também penetrar na estrutura invisível do real.

7. A magia natural

Pico também defende uma forma de magia natural.

Não se trata simplesmente da magia popular ou de feitiçaria.

A ideia é que a natureza possui relações, correspondências e forças que o intelecto pode investigar e utilizar.

O mago, nesse sentido, é alguém que conhece as estruturas ocultas da natureza.

Isso está ligado à concepção renascentista de que conhecer a natureza não significa apenas contemplá-la, mas compreender suas conexões.

Há, portanto, uma passagem importante:

conhecimento → poder de transformação.

A natureza deixa de ser apenas uma ordem contemplada e começa a ser algo que o intelecto humano pode investigar profundamente.

8. O conhecimento como unificação

Pico tinha uma ambição quase absurda: queria demonstrar a concordância fundamental de todas as filosofias.

Ele chegou a propor 900 teses que pretendia defender publicamente em Roma.

O projeto era algo como:

se Platão diz uma coisa, Aristóteles outra, a cabala outra e os antigos filósofos outra, talvez essas diferenças possam ser reconciliadas num nível mais profundo.

É uma concepção muito particular de filosofia.

A filosofia não deveria simplesmente produzir novas opiniões.

Deveria reunir aquilo que a história fragmentou.

9. A condenação das teses

Aqui aparece uma tensão importante.

Algumas de suas teses foram consideradas heréticas pela Igreja, e Pico acabou sendo condenado.

Ele tentou defender-se, mas o projeto das 900 teses era demasiado heterodoxo para a época.

Isso revela uma contradição interessante de sua filosofia:

Pico defendia uma enorme liberdade intelectual, mas continuava acreditando que essa liberdade deveria finalmente conduzir à verdade cristã.

Portanto, ele não é exatamente um pensador secular avant la lettre.

É melhor entendê-lo como alguém que tenta expandir radicalmente o cristianismo por meio da filosofia, e não abandoná-lo.

10. O ser humano como "escultor de si mesmo"

Talvez possamos condensar tudo isso numa imagem.

Para Pico, o homem não é uma estátua acabada.

Ele é mais parecido com um bloco de mármore capaz de esculpir a si próprio.

E isso produz uma inversão filosófica importante.

Na concepção medieval tradicional, a pergunta poderia ser:

"Qual é a natureza que Deus me deu?"

Em Pico começa a surgir outra pergunta:

"O que vou fazer com aquilo que me foi dado?"

É aí que sua filosofia se torna tão importante para a modernidade.

11. O lado sombrio da liberdade

Mas existe uma consequência menos celebratória.

Se o homem pode tornar-se muitas coisas, então também pode degradar-se.

A liberdade é simultaneamente dignidade e risco.

O homem pode elevar-se ao intelectual e ao divino, mas também pode reduzir-se ao puramente corporal e instintivo.

Portanto:

indeterminação → liberdade → possibilidade de autoconstrução → possibilidade de autodegradação.

Essa sequência é muito mais interessante do que a versão simplificada "Pico inventou o humanismo".

12. E isso leva diretamente ao problema moderno da identidade

Aqui talvez esteja o desdobramento mais fértil.

Se o homem não possui uma forma completamente determinada, então a identidade deixa de ser apenas algo que se descobre e passa a ser algo que, em parte, se produz.

Pico ainda está muito longe de Sartre, Foucault ou do existencialismo. Mas há uma estrutura conceitual que posteriormente reaparecerá:

não existe uma essência humana totalmente acabada → existe margem de indeterminação → essa indeterminação permite liberdade → a existência envolve formação de si.

Por isso Pico pode ser colocado, com todas as ressalvas históricas, numa genealogia que passa posteriormente por:

Pico → Montaigne → Nietzsche → existencialismo → Foucault.

Não porque esses autores simplesmente "continuem" Pico, mas porque o problema da constituição de si reaparece sob formas completamente diferentes.

Em uma fórmula

Eu resumiria Pico assim:

O animal recebe uma natureza; o homem recebe uma possibilidade.

E dessa possibilidade saem quase todos os seus grandes conceitos:

indeterminação → liberdade → dignidade → autoconstrução → conhecimento → ascensão → transformação de si → aproximação do divino.

O paradoxo é que essa filosofia, embora profundamente cristã, contém uma das sementes da modernidade: o homem começa a ser pensado menos como uma coisa que possui uma essência e mais como um ser cuja existência ainda está em aberto.