KANT & HUME
Por que Immanuel Kant sentiu que precisava responder a David Hume — e o que estava em jogo nessa resposta?
A disputa não era apenas entre dois filósofos com opiniões diferentes. Ela dizia respeito à possibilidade de conhecermos a realidade, à validade da ciência e até à maneira como entendemos a relação entre causa e efeito.
1. O problema começa com Hume
David Hume (1711–1776)
Hume era empirista: sustentava que o conteúdo de nossas ideias deriva, em última análise, da experiência. Sua investigação da causalidade, porém, levou-o a uma conclusão desconcertante: não percebemos diretamente uma conexão necessária entre causa e efeito.
Imagine que você solta uma bola e ela cai no chão. Você observa uma sequência: a bola é solta, começa a cair e chega ao chão. Repete-se a experiência inúmeras vezes.
Mas o que você efetivamente vê?
- Um acontecimento seguido de outro.
- A repetição regular dessa sequência.
- A expectativa de que o segundo acontecimento voltará a ocorrer.
Você não vê, segundo a análise de Hume, uma espécie de vínculo invisível que obrigue o segundo acontecimento a seguir o primeiro.
A ideia de causalidade nasce, em sua explicação, do hábito formado pela repetição. Como observamos certos acontecimentos sucedendo regularmente a outros, passamos a esperar que a sequência se repita.
Isso não significa que Hume negasse que os acontecimentos tenham causas. Sua questão era mais precisa: que fundamento temos para afirmar que uma conexão causal é necessária e que o futuro seguirá o padrão observado no passado?
A experiência mostra o que aconteceu. Sozinha, ela não demonstra logicamente que o mesmo terá de acontecer novamente.
2. Por que Kant precisou responder?
Immanuel Kant (1724–1804)
Kant era um filósofo profundamente interessado em saber como o conhecimento científico é possível. Hume o obrigou a enfrentar uma dificuldade: se todo conhecimento deriva da experiência, como podemos justificar conhecimentos que parecem necessários e universais?
Pense na diferença entre estas duas afirmações:
- Empírica: até hoje, o Sol aqueceu as pedras quando incidiu sobre elas.
- Necessária: existe uma relação causal que explica por que o aquecimento acontece, e não apenas uma sucessão de acontecimentos que observamos repetidamente.
A primeira afirmação resume observações. A segunda pretende dizer algo mais forte sobre a estrutura dos acontecimentos.
Se seguirmos rigorosamente o problema de Hume, a repetição não prova, por si só, que o futuro será igual ao passado. E a razão, sozinha, também não consegue demonstrar que isso acontecerá.
O problema ameaçava a fundamentação filosófica da ciência newtoniana, que buscava leis universais da natureza. Se a ciência dependesse exclusivamente da generalização de experiências passadas, como justificaríamos a necessidade e a universalidade atribuídas às suas leis?
Kant reconheceu a profundidade dessa dificuldade. No prefácio dos Prolegômenos a Toda Metafísica Futura, de 1783, escreveu que a lembrança de Hume havia interrompido seu “sono dogmático” e dado uma nova direção às suas investigações filosóficas.
A expressão é importante: Kant não diz simplesmente que Hume estava errado. Diz que Hume o despertou de uma maneira de filosofar que não havia examinado suficientemente os fundamentos do próprio conhecimento.
3. A resposta de Kant: a mente participa da constituição da experiência
Aqui está a grande mudança kantiana.
Kant propõe que nossa mente não é apenas um recipiente passivo no qual as sensações entram. Ela possui estruturas e conceitos que tornam possível organizar aquilo que percebemos como uma experiência objetiva.
Entre esses conceitos estão as categorias do entendimento, e uma delas é precisamente a causalidade.
A diferença entre os filósofos pode ser resumida assim:
Hume
Como adquirimos a ideia de causalidade?
Observamos acontecimentos associados repetidamente. O hábito faz com que esperemos um acontecimento quando percebemos o outro.
Kant
O que torna possível experimentar acontecimentos como objetivamente relacionados?
O entendimento aplica a categoria de causalidade à experiência. Ela não é extraída da repetição: é uma condição para organizar acontecimentos como uma sequência objetiva.
Para Kant, portanto, a causalidade não é simplesmente algo que descobrimos depois de observar muitos casos. Ela participa das condições que tornam possível reconhecer uma sucessão de acontecimentos como uma relação objetiva de causa e efeito.
Considere um exemplo: você vê um copo cair e se quebrar.
Você não percebe apenas duas imagens sucessivas, primeiro o copo caindo, depois os cacos no chão. Você procura compreender o segundo acontecimento em relação ao primeiro e às condições físicas envolvidas.
Para Kant, a causalidade faz parte da estrutura conceitual que permite pensar acontecimentos dessa maneira. Isso não significa que a mente invente livremente as causas, nem que saibamos antecipadamente qual será a causa particular de cada acontecimento. A investigação empírica continua sendo indispensável.
É essa a resposta kantiana: a experiência não pode ser a única origem de todas as condições que tornam a experiência possible.
4. Mas Kant realmente refutou Hume?
É aqui que começa a discussão entre os filósofos posteriores.
A resposta de Kant é poderosa, mas não encerrou o debate. Há pelo menos três questões importantes.
Primeira: Kant resolveu o problema ou mudou a pergunta?
Hume pergunta como podemos justificar a inferência de que o futuro se comportará como o passado. Kant responde explicando as condições que tornam possível experimentar uma natureza ordenada por relações causais.
São perguntas relacionadas, mas não idênticas. Alguns intérpretes consideram que Kant responde ao problema central de Hume; outros entendem que ele esclarece as condições da experiência sem justificar todas as nossas previsões particulares sobre o futuro.
Segunda: de onde vem a necessidade?
Kant afirma que a causalidade é uma categoria a priori: não precisamos aprender o conceito fundamental de causalidade pela repetição de experiências, porque ele já é uma condição para organizar a experiência objetiva.
Mas isso não significa que possamos descobrir, sem investigar o mundo, por que determinado medicamento produz certo efeito, por que um planeta se move de determinada maneira ou por que uma substância reage com outra. As leis causais particulares continuam exigindo investigação.
Terceira: até onde podemos aplicar a causalidade?
Kant limita o conhecimento teórico aos objetos tal como podem ser experimentados por nós, isto é, aos fenômenos. Não podemos simplesmente utilizar as categorias que organizam a experiência para afirmar que conhecemos a realidade independentemente de qualquer experiência possível.
Essa restrição é decisiva. Kant não oferece uma licença para afirmar que conhecemos todas as causas últimas do universo. Sua teoria procura estabelecer os limites e as condições do conhecimento legítimo.
5. O que outros filósofos fizeram com esse problema?
Thomas Reid (1710–1796)
Reagiu ao ceticismo de Hume defendendo a confiança em princípios fundamentais do senso comum. A percepção e nossas crenças básicas sobre o mundo não precisariam ser reconstruídas a partir de uma demonstração filosófica de cada passo.
G. W. F. Hegel (1770–1831)
Desenvolveu uma crítica ao empirismo e ao próprio Kant. Para Hegel, as categorias do pensamento não deveriam ser tratadas apenas como estruturas fixas que organizam a experiência; elas precisariam ser compreendidas em seu desenvolvimento e em suas relações dialéticas.
Karl Popper (1902–1994)
Retomou o problema da indução no contexto da filosofia da ciência. Em vez de procurar justificar leis universais pela acumulação de observações favoráveis, destacou a possibilidade de testar teorias e tentar refutá-las. Isso não elimina toda dificuldade levantada por Hume, mas muda a maneira de pensar o método científico.
Nelson Goodman (1906–1998)
Reformulou o problema da indução: mesmo que aceitemos que aprendemos com o passado, como decidimos quais regularidades observadas permitem projetar previsões confiáveis? Nem toda regularidade passada é igualmente adequada para uma generalização.
Esses filósofos não oferecem todos respostas diretamente equivalentes à de Kant. Eles representam caminhos distintos para lidar com problemas relacionados à justificação do conhecimento, à causalidade e à indução.
6. A questão filosófica mais profunda
Na minha leitura, o que torna esse debate fascinante é que Hume e Kant nos obrigam a distinguir duas coisas que normalmente confundimos:
- Estar habituado a acreditar em algo.
- Ter razões para considerar essa crença válida.
Se o Sol nasceu todos os dias da nossa vida, temos excelentes razões práticas para esperar que nasça amanhã. Mas Hume nos convida a perguntar se a repetição, por si só, fundamenta logicamente essa expectativa.
Kant procura mostrar que a possibilidade de conhecer uma natureza ordenada depende de condições que não podem ser simplesmente extraídas dessa mesma experiência.
E há uma consequência filosófica ainda maior: antes de perguntar o que podemos conhecer, precisamos investigar o que torna possível conhecer.
Essa é uma das razões pelas quais Kant ocupa uma posição tão importante na filosofia moderna. Ele leva a sério a crítica empirista de Hume, mas procura construir uma teoria capaz de explicar como o conhecimento objetivo é possível sem retornar à confiança irrestrita na metafísica tradicional.
A controvérsia permanece porque a solução kantiana também tem um preço: precisamos aceitar sua explicação das estruturas a priori do entendimento e examinar se ela realmente resolve o problema que Hume formulou.
Para aprofundar, a melhor sequência é ler a seção IV da Investigação sobre o Entendimento Humano, de Hume, e depois a Introdução e a Segunda Analogia da Experiência na Crítica da Razão Pura, de Kant. O contraste entre os textos deixa muito claro o que está sendo discutido.