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TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

A Teologia da Prosperidade, surgida sobretudo no pentecostalismo e neopentecostalismo norte-americano do século XX, associa a fé cristã à possibilidade de alcançar prosperidade material, saúde, sucesso e realização pessoal. Em algumas de suas formulações, a fé é entendida como uma força capaz de produzir efeitos concretos, daí a importância da “confissão positiva”, pela qual o fiel declara aquilo que deseja alcançar. Também ganha destaque a chamada “semente de fé”: ofertas financeiras e sacrifícios apresentados como expressões de confiança em Deus e associados à expectativa de uma “colheita” de bênçãos. Nessa perspectiva, riqueza, saúde e sucesso podem ser interpretados como manifestações visíveis da bênção divina, embora muitas tradições cristãs rejeitem explicitamente a ideia de que a prosperidade seja medida da fé ou da aprovação de Deus. Do ponto de vista sociológico e filosófico, essa corrente aproxima de maneira particular religião, dinheiro, desejo e realização individual. A pro...

PICO DELLA MIRANDOLA

Pico della Mirandola (1463–1494) é uma figura particularmente interessante porque está num ponto de passagem: ainda pensa dentro de um universo cristão medieval, mas formula uma imagem do ser humano que se tornará profundamente moderna. O centro de sua filosofia é a liberdade humana como indeterminação: o homem não recebe uma natureza completamente acabada; recebe a possibilidade de se fazer. O texto decisivo é o Oratio de hominis dignitate ( Discurso sobre a dignidade do homem ), escrito em 1486 e publicado postumamente. Mas é importante não reduzir Pico à famosa ideia de "o homem pode ser o que quiser". O argumento é mais complexo. 1. O homem como ser sem lugar fixo Pico imagina Deus, no momento da criação, dirigindo-se ao homem mais ou menos assim: "Não te dei, Adão, nem lugar determinado, nem aspecto próprio, nem dom particular." A ideia fundamental é extraordinária para o século XV: enquanto os outros seres recebem uma natureza determinada — o animal é animal,...

EZRA POUND & THE EAST

Ezra Pound’s relationship with the “East,” especially China, is central to his modernism. In Cathay (1915), he reworked classical Chinese poems from literal translations and scholarly notes, despite not knowing Chinese himself. What emerged was not simply a translation of Chinese poetry, but a radical transformation of it into modern English verse: spare, visual, elliptical, and intensely attentive to the image. China became, for Pound, a way of renewing Western poetry. He found in Chinese poetry what he believed modern English poetry needed: economy, precision, juxtaposition, and freedom from abstract explanation. Later, in The Cantos, China became something larger still. Confucius, Chinese history, philosophy, economics, and political thought entered the enormous architecture of the poem. The “East” was no longer merely a source of poetic images; it became a model through which Pound could think about the West. But this encounter was never simply a matter of letting China speak for i...

SAM SAX'S BRAIN

NEUROSCIENCE AND THE GROTESQUE SELVES The passage reads Sam Sax ’s line “the brain is a maniac organ / it puppets me” as a compressed meditation on the instability of the self and the limits of conscious agency.  Drawing on contemporary neuroscience and thinkers such as Metzinger , Seth , and Damasio , it suggests that the self may be an effect of brain processes rather than their sovereign origin, while “maniac” introduces a darker sense of excess, connecting Sax to Schopenhauer , Nietzsche , and Freud ’s critiques of conscious mastery.  A Spinozan / Deleuzian reading further complicates the idea of being “puppeted”: recognizing the forces that determine us can be the beginning of freedom rather than mere fatalism.  The word “organ” intensifies the paradox, since the brain is both part of the self and what produces the experience of having a self, while Dickinson offers a poetic counterpart in treating the brain as a vast interior cosmos.  Ultimately, Sax turns an...

O QUE É HIPERPOLITIZAÇÃO?

Hiperpolitização pode ser entendida, de maneira simples, como uma situação em que a política deixa de ser uma esfera relativamente delimitada da vida social e passa a organizar a interpretação de quase tudo. Isso é um pouco diferente de simplesmente haver muita participação política. 1. Política como uma esfera entre outras Numa concepção mais tradicional das democracias liberais, há uma certa separação entre esferas: política: eleições, partidos, governo, parlamento; trabalho; família; amizades; lazer; arte; relião; vida privada etc. Essas esferas evidentemente nunca são completamente apolíticas. Questões de gênero, classe, raça, direitos, dinheiro, leis etc. atravessam todas elas. Mas existe a expectativa de que nem toda relação humana seja interpretada primariamente como uma disputa política. Por exemplo, duas pessoas podem discordar sobre um filme e simplesmente discordar sobre estética, gosto ou interpretação. 2. O que muda com a hiperpolitização Na hiperpolitização, aumenta a ten...

SYLVIA PLATH E A ARMADILHA BIOGRÁFICA

O movimento mais interessante da crítica contemporânea é perguntar por que Plath foi transformada em um determinado tipo de poeta — e quem se beneficia dessa transformação. Há pelo menos cinco aspectos importantes. 1. Plath foi transformada em personagem antes de ser lida como poeta Uma das críticas mais fortes é àquilo que Heather Clark chama de “P(l)athography”: a mistura de Plath , pathology e biography . A ideia é que uma enorme quantidade da recepção de Plath transformou sua vida em uma espécie de chave explicativa de sua poesia. Clark observa que sua relação com a poesia, sua formação intelectual e suas escolhas formais podem dizer muito mais sobre seus poemas do que, por exemplo, sua relação com o pai ou seu suicídio. Isso produz uma leitura quase circular: Plath sofreu → escreveu poemas sobre sofrimento → portanto os poemas provam que ela sofria → seu suicídio confirma os poemas → o suicídio explica os poemas. Ou seja, a morte passa a funcionar como certificado de autenticida...

A PRISÃO DOS NOMES

Há uma distinção fundamental que muitas vezes se perde quando falamos de gênero: sexo, gênero, expressão de gênero e orientação sexual não são a mesma coisa . Biologicamente, a espécie humana é sexualmente dimórfica, organizada reprodutivamente em torno de dois sexos, macho e fêmea, embora existam variações do desenvolvimento sexual. Sobre essa base biológica, porém, cada sociedade constrói diferentes significados para o masculino e o feminino. Esses significados não são imóveis: transformam-se conforme o tempo, o lugar, a cultura e as relações sociais. Basta olhar para a história para perceber isso. Homens já usaram roupas, ornamentos, cabelos, maquiagem e outros elementos que hoje associamos ao feminino; mulheres, por sua vez, exerceram funções e adotaram comportamentos que em outras épocas seriam considerados exclusivamente masculinos. O que uma sociedade chama de masculino ou feminino nunca foi inteiramente determinado pela biologia. Há sempre uma dimensão histórica e cultural ness...

O CRETINO FUNDAMENTAL

O “cretino fundamental” é uma das figuras mais famosas inventadas por Nelson Rodrigues. Não é uma pessoa específica: é um tipo humano, um personagem recorrente das crônicas dele. Para Nelson, o cretino fundamental é, sobretudo, aquele que não consegue reconhecer o óbvio. Ele pode até ter inteligência, informação ou argumentos; o problema é que sua inteligência fica subordinada à convicção, à vaidade ou à necessidade de estar certo. Há uma diferença interessante entre simplesmente ser burro e ser um cretino fundamental: o burro pode não entender; o cretino fundamental entende apenas aquilo que confirma sua posição. E há uma dimensão social nisso. Nelson percebe que o cretino raramente está sozinho: quando um começa a defender uma ideia absurda com suficiente segurança, outros se agrupam em torno dele, transformando a própria repetição em aparência de verdade. O próprio site dedicado a Nelson resume essa figura como um dos “personagens-tipo” recorrentes das crônicas. E por que “fundament...

PUNJABI DISCO

Punjabi disco é uma fusão muito divertida entre disco ocidental, música punjabi e música de cinema indiano, especialmente associada à cena de Bollywood e à música pop do norte da Índia nos anos 1970–80. 5🪩 O que caracteriza Imagine algo entre: disco + funk + bhangra + Bollywood + sintetizadores A base costuma ter: batida 4/4 bem marcada, frequentemente entre 110–130 BPM; baixo dançante, herdado do funk/disco; sintetizadores e baterias eletrônicas, sobretudo nos anos 1980; dhol/dholak e outros elementos rítmicos punjabi; vocais extremamente melódicos e ornamentados; refrões grandes e repetitivos; uma teatralidade típica do cinema indiano. O elemento punjabi aparece sobretudo no ritmo e na instrumentação, enquanto a estética disco fornece o groove. 🇮🇳 Bappi Lahiri é fundamental Se você quiser entender o som, comece por Bappi Lahiri. Ele é provavelmente o nome mais associado ao Indian disco. Sua música mistura disco, funk, synth-pop e elementos indianos de uma maneira que hoje pode soa...

NU-DISCO E +

Nu-disco é, basicamente, a releitura contemporânea da disco music, mas não é simplesmente “disco antiga com produção moderna”. O que é “nu-disco”? O nome significa literalmente “new disco”. Surgiu como rótulo para uma cena eletrônica que, sobretudo a partir dos anos 2000, começou a recuperar elementos da disco dos anos 1970 e início dos 1980: baixo funky e muito presente; baterias dançantes, frequentemente com four-on-the-floor; cordas e arranjos orquestrais; grooves de baixo elétrico; guitarras chic e choppy; sintetizadores; vocais pop/soul; uma estética de club, glamour e hedonismo. Mas tudo isso é produzido com técnicas e sensibilidades da música eletrônica contemporânea. Disco × nu-disco Uma maneira simples de entender: Disco (1970s) “Vamos fazer uma música para dançar.” Nu-disco (2000s–2020s) “Vamos pegar a linguagem da disco, filtrá-la pela música eletrônica e fazê-la funcionar novamente na pista.” Por isso o nu-disco frequentemente soa mais limpo, minimalista e eletronicamente p...